segunda-feira, 16 de maio de 2016

Não se afobe não...


Luciano Rezende


            Há três anos assumi a disciplina de Ecologia para estudantes de um curso Técnico em Meio Ambiente. Um dos maiores desafios dessa matéria é fazer com que os alunos tenham compreensão das escalas de tempo.

            Como compreender a evolução das espécies se, como nos lembra Richard Dawkins - o mais influente cientista da evolução das espécies contemporâneo -, “estamos equipados para observar processos que se desenrolam em segundos, minutos, anos ou, no máximo décadas”?

Fomos educados para lidar com eventos em escalas de tempo radicalmente diferentes daquelas que caracterizam a mudança evolutiva e o darwinismo “é uma teoria de processos cumulativos tão lentos que se desenrolam ao longo de milhares e milhões de anos”.

A mesma dificuldade é quando tentamos explicar a formação dos solos ou dos relevos. Como sensibilizar o público em geral a compreender os processos orogênicos que formaram (e continuam a formar) os Andes ou o Himalaia? A escala de tempo geológica é demasiadamente extensa para quem se acostumou a viver contando os minutos.

Ainda mais desafiador é quando conversarmos sobre a escala de tempo cósmico, onde a formação do universo e do planeta Terra é compreendida em bilhões e bilhões de anos.

Também na discussão política enfrentamos esse problema. Embora a escala de tempo histórico seja bem menos extensa que os tempos geológico ou cósmico, o imediatismo e o instanteneísmo - fenômenos exacerbados na atual fase do capitalismo -, dificultam enormemente a compreensão política dos avanços sociais vivenciados em apenas treze anos de governos Lula e Dilma.

Boa parte da população quer mudanças estruturais para amanhã. Desconhece o processo histórico e as dificuldades impostas por uma correlação de forças extremamente desfavorável. Ignora os poderes de uma classe dominante que ocupa secularmente os variados poderes da República e do mercado.

Por isso mesmo, a educação política exige grande dose de paciência e pedagogia. A compreensão do tempo histórico nos levará a comemorar os grandes avanços alcançados e ter firmeza na sequencia de nossa luta, convictos de que ainda só estamos no começo de um longo caminho rumo a uma sociedade mais avançada: o socialismo.

            Aqueles que pensavam que a queda do governo Dilma abateria a militância de esquerda em nosso país estão tendo uma indigesta surpresa. Esse é um grande diferencial do nosso campo político: perspectiva histórica.

            Já os coprólitos do atual governo Temer, esperarão ainda algumas eras até serem desenterrados de todo o sedimento varrido pela história.

Daí, relembrando nosso combativo Chico, quem sabe os escafandristas não virão, e “sábios em vão, tentarão decifrar, o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização...”.

Mas nada é pra já, o amor não tem pressa, ele pode esperar, embora, em nosso caso, jamais em silêncio.


Luciano Rezende é professor do IFF (Instituto Federal Fluminense), Campus de Bom Jesus do Itabapoana (RJ)

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